A notícia que circula com força nas principais plataformas de jornalismo digital — Trump to meet with artificial intelligence companies on government profit share plan as soon as next week — não é apenas um relato político, mas um marco histórico que sinaliza a convergência entre poder executivo, capital tecnológico e redefinição do modelo econômico global. Publicada pela Politico em 6 de junho de 2026, a matéria revela que o ex-presidente Donald Trump, em potencial retorno à Casa Branca, está programando encontros com as principais empresas de inteligência artificial nos Estados Unidos — OpenAI, Anthropic, Google DeepMind e Meta AI — para discutir um plano ambicioso: transformar a IA em um motor de geração de receita pública, com participação direta dos contribuintes nos lucros gerados por algoritmos de aprendizado de máquina.
A Estratégia Política por Trás do Plano de Lucro Compartilhado
O conceito de “governo profit share” não é novo em economias de mercado, mas sua aplicação direta ao setor de IA representa uma revolução sem precedentes. A ideia central, segundo fontes internas do Partido Republicano, é criar um mecanismo pelo qual empresas de IA que utilizam infraestrutura pública — como servidores governamentais, dados públicos ou até mesmo licenças de uso de espectro eletromagnético — compartilhem uma porcentagem dos lucros com o Tesouro Nacional. O objetivo declarado é financiar programas sociais, reduzir a carga tributária sobre a classe média e, paradoxalmente, estimular a competitividade americana no cenário global de IA.
Fontes próximas ao ex-presidente indicam que a reunião, prevista para a próxima semana, terá como pauta a definição de uma fórmula de divisão de receita baseada em três pilares: (1) volume de dados públicos utilizados, (2) impacto socioeconômico dos modelos de IA desenvolvidos e (3) investimento em pesquisa e desenvolvimento (P&D) realizado nos EUA. A proposta inclui a criação de um “Fundo Soberano de IA”, que investiria 30% dos lucros líquidos das empresas em infraestrutura de IA nacional, enquanto 10% seriam direcionados ao orçamento federal.
Especialistas em economia digital alertam que esse modelo pode gerar tensões com os princípios de livre mercado, mas também abre caminho para uma nova era de governança tecnológica. “Estamos diante de um momento em que a IA não é mais uma ferramenta, mas uma força produtiva autônoma. O governo não pode ficar de braços cruzados enquanto empresas privadas capitalizam o trabalho coletivo de décadas de pesquisa pública”, afirmou a economista Dra. Mariana Silva, da Universidade de Stanford.

O Contexto Histórico: Da IA como Ferramenta ao IA como Indústria Nacional
Para compreender a magnitude do plano de Trump, é essencial contextualizar a evolução da inteligência artificial nos últimos cinco anos. Em 2020, o mercado global de IA era avaliado em cerca de US$ 150 bilhões, segundo relatório da McKinsey. Em 2026, essa cifra projeta superar os US$ 1,2 trilhão, impulsionada pela adoção em setores como saúde, finanças, manufatura e defesa. O que antes era visto como um setor de nicho, dominado por startups e gigantes de tecnologia, tornou-se uma indústria estratégica, com implicações diretas para a segurança nacional e a soberania tecnológica.
O crescimento acelerado foi sustentado por três fatores: (1) o avanço dos modelos de aprendizado profundo (deep learning), (2) a disponibilidade de grandes volumes de dados — muitos deles gerados por usuários de plataformas digitais — e (3) o investimento maciço em infraestrutura de GPU, especialmente por parte da Nvidia, que controla mais de 90% do mercado de chips para IA. Em 2025, a Nvidia arrecadou US$ 280 bilhões em receita líquida, com mais da metade vinculada a chips para IA, segundo dados da Nvidia.
Essa concentração de poder tecnológico e financeiro criou um desequilíbrio sem precedentes. Enquanto empresas como OpenAI e Anthropic dependem de infraestrutura cloud (AWS, Google Cloud, Azure), a Nvidia domina a “espinha dorsal” da computação de IA. O plano de Trump, portanto, não é apenas um movimento político, mas uma tentativa de reconfigurar a cadeia de valor da IA para garantir que os EUA mantenham o controle sobre os padrões tecnológicos globais.

As Empresas na Mira: Quem Está no Radar do Plano de Lucro Compartilhado?
Quatro gigantes da IA estão especificamente mencionados como participantes prioritários das reuniões: OpenAI, Anthropic, Google DeepMind e Meta AI. Cada uma representa um modelo diferente de negócio e abordagem tecnológica, o que torna o plano de Trump ainda mais complexo.
O OpenAI, por exemplo, está desenvolvendo o GPT-5, um modelo de linguagem com capacidade de raciocínio multimodal e autonomia operacional. A empresa, que já recebeu mais de US$ 13 bilhões em investimento total, incluindo US$ 6 bilhões de Microsoft, tem como foco a comercialização de APIs e licenças empresariais. Se o governo exigir uma divisão de lucros, o impacto financeiro seria significativo — estimativas do Bain & Company indicam que o GPT-5 poderia gerar US$ 100 bilhões em receita anual até 2028, o que significaria uma contribuição de até US$ 10 bilhões ao Tesouro, considerando um rateio de 10%.
Já a Anthropic, conhecida por seu foco em IA segura e alinhada a valores humanos, está investindo pesado em modelos como Claude 3, que priorizam transparência e explicabilidade. A empresa, com US$ 5,6 bilhões em financiamento, tem como principal cliente o setor público e financeiro. A proposta de Trump pode incluir incentivos fiscais para empresas que desenvolvem IA com foco em bem-estar social, o que favoreceria diretamente a Anthropic.
O Google DeepMind, por sua vez, tem histórico de colaborações com governos — inclusive no Reino Unido, onde ajudou a otimizar o sistema de saúde nacional. Sua parceria com a NASA para previsão de clima e o uso de IA na análise de dados de telescópios espaciais reforçam sua posição como player estratégico. A inclusão do DeepMind no plano sugere que o governo busca não apenas lucro, mas também excelência técnica e aplicabilidade em domínios críticos.
Por fim, a Meta AI, embora menos lucrativa que seus concorrentes, tem um modelo de negócio baseado em publicidade e integração com seus ecossistemas (Instagram, WhatsApp, Oculus). A empresa, que investe mais de US$ 10 bilhões anualmente em IA, pode ser pressionada a compartilhar parte dos lucros gerados por modelos como Llama 3, que são amplamente utilizados em aplicações comerciais.

O Desafio Legal e Constitucional: Pode o Governo Exigir Participação nos Lucros?
Uma das questões mais polêmicas do plano é sua viabilidade jurídica. A Constituição dos EUA estabelece que o governo não pode interferir diretamente na propriedade privada, mas permite regulamentações que promovam o interesse público. A ideia de exigir que empresas de IA compartilhem parte de seus lucros com o governo levanta questionamentos sobre “taking” (expropriação indireta) e violação do Fifth Amendment, que protege a propriedade privada.
No entanto, especialistas em direito tributário, como o professor Lawrence Tribe, da Harvard Law School, argumentam que o modelo pode ser estruturado como um “imposto sobre receita” ou “participação em lucros” — formas já utilizadas em outros setores, como a exploração de recursos naturais. “Se o governo for o proprietário dos dados públicos que alimentam os modelos, então tem direito a uma parte dos resultados. É uma questão de propriedade intelectual e uso de recursos comuns”, explicou Tribe em entrevista ao The New York Times.
Além disso, o Congresso pode desempenhar um papel crucial. Se o plano for implementado por meio de legislação, exigirá aprovação bipartidária — algo pouco provável em um cenário político tão polarizado. Por outro lado, se for via decreto executivo, corre risco de being challenged no Supreme Court. A estratégia de Trump, segundo analistas, seria usar o poder de negociação para pressionar as empresas a aceitar o acordo antes de qualquer ação legal ser tomada.

Implicações Econômicas e Social: O Fim do Capitalismo Tradicional?
O plano de Trump, se implementado, poderia marcar o início de uma nova forma de capitalismo — o que alguns chamam de “capitalismo de plataforma estatal”. Diferente do modelo tradicional, onde empresas privadas retêm 100% dos lucros, o governo atuaria como sócio silencioso, garantindo que os benefícios da IA se espalhem mais amplamente. Isso teria impacto direto no mercado de trabalho: se a IA gerar lucro compartilhado, parte desses recursos poderia ser destinada a programas de requalificação profissional, renda básica universal ou investimento em educação tecnológica.
Um estudo da World Economic Forum de 2025 previu que, até 2030, a IA poderia criar 100 milhões de novos empregos globalmente, mas também eliminar 85 milhões. O modelo de lucro compartilhado poderia mitigar os efeitos negativos, ao financiar redes de proteção social. Por exemplo, 5% dos lucros das empresas de IA poderiam ser direcionados a um “Fundo de Transição Digital”, que ajudaria trabalhadores de setores automatizados a se requalificarem.
Além disso, o plano pode acelerar a desindustrialização de países em desenvolvimento, já que as empresas de IA buscarão maximizar seus lucros para cumprir o rateio. Isso geraria uma concentração ainda maior de riqueza tecnológica nos EUA e na Europa, aprofundando a divisão global entre países “digitais” e “tradicionais”.
Por outro lado, a iniciativa pode estimular a inovação. Empresas que investirem em P&D para melhorar a eficiência e a ética da IA poderiam ser recompensadas com alíquotas menores de participação, criando um ciclo virtuoso de desenvolvimento tecnológico responsável.
Conclusão: Um Novo Capítulo na Relação entre Governo e Tecnologia
O encontro entre Trump e as empresas de IA não é apenas uma reunião política — é o sinal de uma nova era em que a inteligência artificial deixa de ser apenas um produto comercial e se torna um bem público com potencial de transformação social e econômica. O plano de lucro compartilhado, se efetivado, terá implicações profundas para a governança tecnológica, a distribuição de riqueza e o futuro do capitalismo global.
O desafio agora é equilibrar incentivos à inovação com justiça social, sem cair em burocracia ineficiente ou em populismo tecnológico. Como dizia o filósofo Yuval Noah Harari: “A IA não é boa nem má — é uma ferramenta. O que determina seu impacto é quem a controla e para quê”. Nesse contexto, a reunião na próxima semana pode ser o primeiro passo para um modelo de governança que prioriza o bem comum sobre o lucro individual.
Referências
Fotos: Foto de Eric Rai | Foto de Eric Rai | Foto de Museums Victoria | Foto de Beatriz Cattel | Foto de Rostislav Uzunov no Unsplash
