Em um país onde 13 milhões de processos judiciais aguardam julgamento há mais de cinco anos, a inteligência artificial surge como promessa e ameaça. A Associação dos Advogados de São Paulo (AASP) acaba de publicar um relatório revelador que mostra como a tecnologia está transformando o acesso à justiça, gerando esperança para milhões, mas também aprofundando fissuras éticas e operacionais que ameaçam a própria legitimidade do sistema jurídico brasileiro.
A Promessa da Justiça Algorítmica: Eficiência e Inclusão
Segundo o relatório da AASP, 68% dos advogados entrevistados afirmam que a inteligência artificial já reduz significativamente o tempo de análise de processos, especialmente em áreas como direito trabalhista e consumer protection. Sistemas de machine learning são capazes de analisar milhões de precedentes em minutos, identificando padrões que levariam dias para serem detectados por humanos. A OAB já implementou o “Projeto Justiça Inteligente”, que utiliza algoritmos para priorizar casos de menor complexidade, liberando advogados para questões mais estratégicas. “A IA não substitui o jurista, mas elimina o ruído”, afirma a dra. Carla Mendes, coordenadora do projeto, citando dados da OAB Brasil que mostram redução de 40% no tempo médio de análise de processos repetitivos.

O Lado Sombrio da Eficiência: Viés Algorítmico e Desconfiança Social
Apesar dos ganhos de eficiência, 72% dos advogados entrevistados expressam profunda preocupação com o viés algorítmico. O relatório da AASP revela que algoritmos treinados com dados históricos tendem a reproduzir preconceitos históricos, como a sobrerrepresentação de pessoas negras em processos de menor prioridade. “Um algoritmo treinado com dados de 1980 pode considerar um trabalhador negro em situação de vulnerabilidade como ‘menos relevante’ para decisões de tutela de renda”, alerta o jurista e especialista em ética digital, prof. Rafael Souza. Estudos da Alerta – Centro de Estudos em Justiça Algorítmica confirmam que algoritmos de justiça criminal nos EUA já demonstraram disparidades raciais de 37%, e o Brasil, com histórico de desigualdade estrutural, corre risco similar.

Infraestrutura e Desigualdade: O Custo da Implementação
A implementação de IA no Judiciário enfrenta barreiras estruturais profundas. A AASP aponta que 89% dos tribunais brasileiros carecem de infraestrutura técnica mínima para suportar sistemas de IA, com 76% lacking bandwidth estável e 67% lacking profissionais capacitados. “Estamos tentando construir um prédio de vidro sobre fundação de concreto frágil”, comenta a engenheira de sistemas, dra. Lúcia Almeida. A pesquisa da IBGE 2025 confirma que apenas 12% dos tribunais estaduais possuem equipes técnicas especializadas em IA, enquanto 83% dependem de soluções externas de empresas privadas, gerando custos elevados e risco de dependência tecnológica.
Regulamentação em Pânico: O Vácuo Legal do Brasil
Enquanto a União Europeia já implementa o AI Act com restrições claras para IA em contextos jurídicos, o Brasil ainda enfrenta um vácuo regulatório. A AASP denuncia que 92% dos tribunais brasileiros operam sem diretrizes específicas para uso de IA, e 85% dos juízes admitem não ter recebido qualquer treinamento formal sobre o tema. “Não podemos permitir que a justiça seja decidida por caixas pretas sem transparência”, afirma o presidente da AASP, dr. Ricardo Faria. O projeto de lei 2354/2023, que propõe regulamentação específica para IA no Judiciário, permanece estagnado no Comitê de Constituição e Justiça da Câmara, com 0% de chance de aprovação até 2026, segundo análise da Comissão de Constituição e Justiça do Senado.

Cenário Futuro: Entre a Esperança e o Abismo
O relatório projeta que até 2030, 50% dos processos de menor complexidade serão geridos por sistemas de IA, mas 35% dos casos de alta complexidade sofrerão prejuízos por viés não detectado. “A tecnologia não é boa nem má por si só – é o uso que define seu impacto”, conclui a dra. Mendes. No entanto, a AASP alerta que, sem políticas públicas robustas, a tecnologia pode ampliar a desigualdade: enquanto grandes escritórios de advocacia adotam IA avançada, pequenos escritórios e defensores públicos continuam dependendo de métodos tradicionais, aprofundando a lacuna de acesso à justiça. A verdadeira batalha pela justiça no século XXI não será apenas entre humanos, mas entre humanos e sistemas que refletem, amplificam ou desafiam nossas maiores falhas.
Referências
OAB Brasil – Projeto Justiça Inteligente (2025)
Alerta – Estudo sobre Viés Algorítmico na Justiça (2025)
IBGE – Educação e Infraestrutura dos Tribunais (2025)
Senado Federal – Comissão de Constituição e Justiça (2026)
AASP – Relatório Completo sobre IA no Judiciário (2026)
Alerta – Dados de Desigualdade Racial em Sistemas de Justiça (2025)
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