Em um cenário de transformação acelerada, um economista americano de renome trouxe à tona debates cruciais sobre como a inteligência artificial reconfigura estruturas produtivas, mercados financeiros e modelos de crescimento na América do Sul. A palestra, ocorrida em Porto Alegre, não foi apenas um exercício acadêmico, mas um alerta estratégico: a IA não é apenas uma ferramenta, mas um agente de mudança sistêmica que desafia modelos tradicionais de produtividade, geração de empregos e equilíbrio fiscal. Este artigo analisa os pontos-chave do debate, com base em dados recentes, modelos econométricos e estudos de caso, para revelar como o Brasil pode navegar nesse novo território sem cair em armadilhas históricas de desequilíbrio.
O Contexto da Discussão: Por Que Porto Alegre e Não Nova York?
O debate ocorreu no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) em parceria com a Universidade Federal de Porto Alegre (UFPG), um local estratégico para discussões sobre desenvolvimento regional. O economista, especialista em políticas públicas e automação, destacou que a América do Sul, embora menos discutida que os EUA ou a Europa, é um laboratório único para entender os impactos da IA em economias emergentes. “O Brasil não é um mero receptor de tecnologia — é um agente ativo que pode moldar a implementação da IA com base em suas particularidades”, afirmou. Dados do Banco Mundial indicam que 62% da população brasileira trabalha em setores vulneráveis à automação, como comércio e serviços, tornando a discussão ainda mais urgente.

Os Três Pilares dos Impactos Econômicos da IA
O economista estruturou sua análise em três pilares fundamentais: produtividade, mercado de trabalho e desigualdade. Cada um exige abordagens específicas para evitar crises sistêmicas.
Produtividade: O Ilusão da Eficiência Ilimitada
Segundo o relatório da McKinsey (2025), a IA tem potencial para aumentar a produtividade global em até 1,5% ao ano, mas esse ganho é condicional a investimentos em infraestrutura digital e capital humano. No Brasil, a produtividade total dos fatores (PTF) ainda está 18% abaixo da média da OCDE, segundo o Banco Mundial. A IA pode acelerar esse processo, mas apenas se houver políticas de upskilling. “A promessa de ‘fazer mais com menos’ é real, mas sem formação técnica, a IA ampliará a desigualdade”, alertou o economista. Dados do IBGE (2024) mostram que 73% das empresas brasileiras ainda não adotaram sistemas de IA para otimização de processos, indicando um gap tecnológico significativo.
Mercado de Trabalho: Entre Deslocamento e Criação
O setor de serviços, que representa 75% do emprego formal no Brasil, é o mais afetado. Um estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV) projeta que 12 milhões de empregos serão automatizados até 2030, mas 8 milhões de novos postos surgirão ligados à IA, como analistas de dados, especialistas em ética algorítmica e engenheiros de automação. “A transição será dolorosa sem políticas de rede de segurança”, destacou o economista. A Lei de Aprendizagem (Lei 11.180/2005) precisa ser atualizada para incluir cursos de IA em programas de formação profissional, algo que o governo federal ainda não prioriza.
Desigualdade: O Risco de um ‘Divisão Digital’ Permanente
O economista alertou para o perigo de que a IA amplie a desigualdade regional. Enquanto cidades como São Paulo e Rio de Janeiro adotam IA em serviços públicos (ex.: previsão de tráfego com algoritmos), regiões do Nordeste ainda dependem de sistemas manuais. “A IA não é neutra — ela reflete as escolhas políticas e de investimento”, disse. Dados do IBGE (2023) revelam que 45% das áreas rurais do Brasil não têm acesso à internet de alta velocidade, limitando a adoção da tecnologia. A falta de políticas de inclusão digital pode consolidar uma ‘nova elite tecnológica’ que domina o mercado.
Caso de Estudo: O Impacto da IA na Agricultura Gaúcha
Para ilustrar os efeitos da IA na economia regional, o economista citou o caso da agricultura do Rio Grande do Sul, onde o uso de sensores IoT e algoritmos de machine learning na irrigação aumentou a produtividade em 22% entre 2022 e 2024, segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). “A IA não substitui o agricultor, mas o torna mais resiliente a secas e variações climáticas”, explicou. Dados do Ministério da Agricultura (2025) indicam que 35% das propriedades rurais do estado já adotam tecnologias de IA, mas apenas 12% têm acesso a suporte técnico especializado, evidenciando a necessidade de políticas públicas direcionadas.

Políticas Públicas: O Papel Crítico do Estado
O economista destacou que o mercado sozinho não resolverá os desafios da IA. Ele propôs quatro medidas-chave: 1) Criação de um fundo nacional de IA para financiar P&D em universidades; 2) Incentivo fiscal para empresas que adotam IA com foco em geração de empregos qualificados; 3) Integração de IA nos currículos de ensino médio e superior; 4) Regulação ética para evitar vieses algorítmicos. “O Brasil precisa de uma estratégia nacional, não de ações isoladas”, afirmou. O projeto de lei 2025/12, em tramitação no Congresso, propõe a criação do ‘Programa Nacional de Inteligência Artificial’, mas ainda não foi aprovado.
Desafios Técnicos e Econômicos: O Futuro Imediato
Além dos desafios sociais, o economista abordou obstáculos técnicos que impactam a escalabilidade da IA. A escassez de chips NVIDIA H100, por exemplo, limita a capacidade de treinamento de modelos grandes no Brasil. “Nós dependemos de importação, o que aumenta custos e atrasa inovações”, disse. Dados da Statista (2025) mostram que o custo médio de um chip H100 é de US$ 30.000, enquanto a média global é de US$ 15.000. A falta de infraestrutura de energia renovável também é um problema: 60% dos data centers brasileiros ainda usam energia fósseis, aumentando a pegada de carbono da IA. A Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) já sinaliza que a transição para energia limpa será lenta, exigindo soluções inovadoras como o uso de IA para otimizar consumo energético em tempo real.
Conclusão: Um Chamado à Ação Estratégica
A discussão em Porto Alegre não foi apenas um diagnóstico, mas um convite à ação. O economista concluiu que o Brasil tem uma janela de 5 anos para implementar políticas que transformem a IA de risco em motor de crescimento inclusivo. “O futuro não é de máquinas substituindo humanos, mas de humanos usando máquinas para criar valor sustentável”, ressaltou. Com 2026 marcado por eleições e reformas econômicas, a decisão de investir em IA com visão estratégica será crucial para evitar o ‘fim do hype’ e a estagnação. A hora de agir é agora — e Porto Alegre, com sua tradição de debate intelectual, pode ser o berço dessa transformação.
Referências
McKinsey Global Institute: The Future of Work (2025)
Banco Central do Brasil: Relatório de Estabilidade Financeira (2024)
Fundação Getulio Vargas: Impactos da IA no Mercado de Trabalho (2024)
Embrapa: Agricultura e Inteligência Artificial (2024)
IBGE: Educação e Infraestrutura Digital (2023)
ANEEL: Relatório de Energia Renovável (2025)
Fotos: Foto de Roaming Pictures | Foto de Roaming Pictures | Foto de Sameer Kolhar no Unsplash
