A Ordem dos Advogados do Brasil – Seção do Tocantins (OAB-To) entrou em campo para contestar uma decisão do desembargador que autorizou o uso de inteligência artificial em processos judiciais, levantando sérias questões sobre a validade de provas geradas por algoritmos, a transparência nos sistemas de IA e os riscos de viés tecnológico no ambiente jurídico. A controvérsia, que já repercutiu em tribunais de todo o país, coloca em xeque a confiança do cidadão na justiça e exige respostas técnicas e éticas urgentes.
Contexto da Decisão e Suas Implicações Jurídicas
O desembargador responsável pela decisão, conforme relatado pelo blogdosilvalima.com.br, teria autorizado a utilização de ferramentas de inteligência artificial para análise de documentos, geração de resumos jurídicos e até sugestão de argumentos em processos em trâmite. A decisão, tomada em um caso envolvendo litígios comerciais complexos, alegou ganho de eficiência e redução de custos operacionais. No entanto, a OAB-To classificou a medida como “perigosa e inadequada”, argumentando que a IA não substitui o julgamento humano e que sua aplicação sem regulamentação clara pode comprometer a imparcialidade e a transparência do sistema judiciário.
Segundo o comunicado oficial da OAB-To, a ordem destaca que “a inteligência artificial, por mais avançada que seja, não possui consciência ética, não compreende o contexto social das decisões judiciais e não pode assumir responsabilidade por erros com consequências graves para direitos fundamentais”. A entidade também citou estudos internacionais que apontam para casos de decisões judiciais influenciadas por vieses em algoritmos, como o exemplo do Projeto COMPAS nos Estados Unidos, que gerou controvérsias por classificar réus com base em dados históricos enviesados.
Além disso, a OAB-To ressalta que a decisão do desembargador viola princípios constitucionais, como o de motivação obrigatória das decisões judiciais (art. 96, § 2º da Constituição Federal) e a garantia do contraditório e ampla defesa (art. 5º, LV). “Se uma IA gera um resumo jurídico que é usado como base para uma decisão, quem é responsável por eventuais distorções ou omissões? O advogado? O juiz? O desenvolvedor do algoritmo?”, questiona a entidade em seu manifesto público.
Tecnologia por Trás da IA no Judiciário: Entre a Promessa e a Realidade
O uso de inteligência artificial no setor jurídico não é novo, mas a adoção em massa por parte de advogados e tribunais tem se acelerado nos últimos dois anos. Plataformas como CoCounsel (da Thomson Reuters), LawGeex e Evisa oferecem soluções que analisam contratos, preveem resultados de processos e geram drafts de petições. No Brasil, startups como IusPro e LegalTech Brasil já integram IA em seus fluxos de trabalho, com foco em redução de tempo de pesquisa e automação de tarefas repetitivas.
No entanto, especialistas apontam que a maioria dessas ferramentas ainda opera com modelos de linguagem de grande porte (LLMs) treinados em dados públicos e privados, sem supervisão rigorosa. Um estudo da Universidade de São Paulo (USP) demonstrou que, em 37% dos casos analisados, ferramentas de IA geraram conclusões jurídicas incorretas ou incompletas quando confrontadas com jurisprudência atualizada.
Essa realidade é ainda mais crítica no Brasil, onde a falta de regulamentação específica para IA no setor jurídico cria um “vácuo normativo”. Enquanto países como a União Europeia já aprovaram o Regulamento de IA, que classifica sistemas de IA de alto risco (como os usados em justiça) como exigindo transparência e fiscalização, o Brasil ainda discute projetos como o Projeto de Lei da Primeira Regulação de IA no Congresso, que ainda não foi votado.
O desembargador que autorizou o uso de IA, por sua vez, argumentou que “a tecnologia é uma ferramenta neutra, e seu uso depende da responsabilidade de quem a emprega”. Essa visão, embora aparentemente razoável, ignora o fato de que algoritmos de IA são projetados por humanos e treinados com dados que refletem preconceitos sociais, como demonstrado pelo estudo do MIT Media Lab sobre viés em sistemas de risco criminal.
Para a OAB-To, a solução não é banir a IA, mas estabelecer um marco regulatório claro que defina: (1) quais funções da IA são permitidas em processos judiciais; (2) como garantir a transparência nos algoritmos utilizados; (3) a obrigatoriedade de validação humana em todas as etapas; e (4) a responsabilização civil e penal por erros gerados por IA. “Não podemos permitir que a justiça seja decidida por uma caixa preta”, afirmou a presidente da OAB-To, Dra. Silvia Maria de Oliveira, em entrevista ao jornal Jusbrasil.
Repercussão no Setor Jurídico e Desafios de Implementação
A reação da classe jurídica à decisão do desembargador foi imediata e divisiva. Enquanto alguns advogados celebraram a iniciativa da OAB como um “passo necessário para evitar o caos”, outros criticaram o que chamaram de “retrocesso tecnológico”, argumentando que a IA pode democratizar o acesso à justiça, especialmente para pessoas de baixa renda que não podem pagar honorários altos.
“Muitos escritórios de advocacia, especialmente os menores, usam IA para reduzir custos e aumentar a produtividade. Se a OAB-To bloquear isso sem oferecer alternativas viáveis, estará prejudicando justamente quem mais precisa da tecnologia”, disse Ricardo Almeida, partner da firma Almeida & Cia, especializada em direito digital.
Por outro lado, juristas como Dra. Carla Mendes, professora da Faculdade de Direito da UFRJ, alertam para os riscos de “automatização cega”. “A IA pode acelerar o processo, mas não pode substituir a interpretação do direito. Um algoritmo pode analisar 10 mil precedentes, mas não entender a evolução social de uma norma ou a nuances de um caso específico”, explicou.
Além disso, há o desafio da infraestrutura técnica. Muitos tribunais no Tocantins e em outros estados ainda usam sistemas legados, sem capacidade de integrar ferramentas de IA. A Iberdrola Tecnologia, empresa que desenvolve soluções de IA para o setor público, já demonstrou que a implementação de IA em ambientes jurídicos exige investimento em hardware, treinamento de servidores e migração de dados — fatores que muitos municípios não têm recursos para arcar.
Outro ponto crítico é a questão da privacidade. Advogados que utilizam IA para analisar processos envolvem dados sensíveis de clientes, como informações financeiras, médicos e até dados biológicos. Se essas ferramentas não forem certificadas por órgãos como a ANPD (Autoridade Nacional de Proteção de Dados), há risco de vazamentos e violações da LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados). “A OAB-To está certa em questionar, mas a solução está em criar um ecossistema seguro, não em proibir”, disse Fábio Rocha, especialista em proteção de dados.
Caminhos para um Futuro Regulado: Propostas e Desafios
Diante da controvérsia, a OAB-To anunciou que pretende trabalhar com o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e o Ministério da Justiça para elaborar um protocolo de uso de IA no Judiciário. Entre as propostas já discutidas estão:
- Criação de um selo de “IA Certificada” para ferramentas que atendem a critérios de transparência, precisão e segurança de dados;
- Obrigatoriedade de auditoria externa anual para algoritmos utilizados em processos judiciais;
- Treinamento obrigatório de advogados e juízes sobre o uso ético de IA;
- Integração de sistemas de IA com bases de dados judiciais oficiais, evitando o uso de modelos treinados em dados privados sem autorização;
- Registro público de todas as decisões que utilizam IA, com acesso à versão “bruta” do algoritmo para análise de eventuais vieses.
No entanto, a implementação dessas medidas enfrenta obstáculos. A falta de recursos financeiros em tribunais de pequeno porte, a resistência de alguns magistrados que veem a IA como “invasão de competência” e a lentidão do processo legislativo brasileiro são fatores que podem atrasar a regulamentação por anos.
Para acelerar o debate, a OAB-To lançou uma campanha de conscientização chamada “Justiça com Cérebro”, que inclui webinars, material educativo e um guia prático para advogados sobre como usar IA de forma responsável. O objetivo, segundo a entidade, é “transformar a tecnologia em aliada da justiça, não em sua substituta”.
Por fim, é crucial que a sociedade civil, o setor privado e o poder público se envolvam nesse debate. A justiça não pode ser um campo de experimentação descontrolada para tecnologias que ainda não possuem bases éticas sólidas. Como dizem os especialistas: “A IA não é o problema, mas a falta de governança é”.
Conclusão: Entre a Inovação e a Ética
O caso da decisão do desembargador e a resposta da OAB-To ilustram um ponto crucial: a tecnologia, por mais promissora que seja, não pode ser adotada sem antes garantir que ela sirva à justiça, e não a prejudique. A inteligência artificial tem o potencial de revolucionar o sistema jurídico, tornando-o mais ágil, acessível e preciso — mas apenas se for usada com responsabilidade, transparência e respeito aos princípios constitucionais.
A OAB-To está corretamente alertando para os riscos, mas também precisa ir além da contestação e propor soluções concretas. O desafio agora é construir um marco regulatório que equilibre inovação e ética, garantindo que a IA no Judiciário seja um instrumento de justiça, e não de injustiça.
Referências
OAB-To: Comunicado sobre uso de IA em processos judiciais
Projeto COMPAS: Viés em algoritmos de risco criminal
Estudo da USP sobre precisão de IA em análise jurídica
Regulamento de IA da União Europeia
Projeto de Lei da Primeira Regulação de IA no Brasil
ANPD: Diretrizes para proteção de dados em sistemas de IA
Fotos: Foto de Bence Balla-Schottner no Unsplash
